quarta-feira, 22 de julho de 2015

Desalmado - Capitulo I

Estava escuro e frio, o vento gelado da noite de sexta feira batia-lhe no rosto. Não gostava do frio, não gostava do vento e logo hoje teria de enfrentar os dois, seria muito azar até mesmo para ele e isso porque era um dia 12 "sexta-feira 12, isso sim" gargalhou. A rua não era asfaltada e se cruzava com outra rua semelhante, no entanto mais estreita. Poucas estrelas no céu e nenhuma nuvem, apenas o céu. Olhou para cima com desgosto “Grandicíssimo filho da puta” pensou, sempre pensava isso quando olhava para o céu. Continuou andando. “Frio, vento e ainda dizem que onde eu moro é um lugar ruim”. Só pensava em sua casa, no calor, no conforto, nos rostos desesperados que via por todos os cantos, que lugar maravilhoso.

O Ambiente ao redor monótono e repleto de árvores secas plantadas em solo pobre. Percebeu que a única casa que avistara já tinha passado havia tempo, uma casa pequena e abandonada, com o telhado caído, paredes quebradas e o terreno em volta repleto de ervas daninhas, ou era o que pareciam, afinal estava tão escuro que não era possível identificar “são ervas daninha e ponto” pensou no intuito de por um fim ao seu questionamento. O resto do caminho não mudara muito, exceto pela casa. Como alguém algum dia teve a brilhante ideia de construir uma casa naquele fim de mundo? Talvez e essa creio ser a resposta mais sensata seria: a pessoa construiu a casa naquele fim de mundo para fazer as pessoas se perguntarem por que alguém construiria uma casa naquele fim de mundo.

Encontrava-se parado no cruzamento das duas ruas, o frio apertava a cada segundo que passava, e viu que não tinha nenhuma companhia, a não ser pelo corvo que se encontrava pousado em uma árvore cujo galho se projetava sobre sua cabeça. Sempre tinha que ter um corvo de figurante por onde quer que passasse. Ignorou a ave esperou impacientemente.

A espera parecia longa e isso o deixava muito irritado. Uma serie de pensamentos tomavam conta de sua mente “Ele virá mesmo?” se perguntou durante todo esse período, ou então “Será que devo invoca-lo” nunca esteve nessa posição da relação, mas pensava que não, afinal eram só humanos e para falar a verdade este lance da invocação não existia realmente, se as pessoas quisessem falar com ele era só chamar, mas ele adorava ver os rituais aleatórios e a criatividade das pessoas, sem falar que toda essa baboseira ritualistica servia como filtro, pois nem todos estavam dispostos a fazê-lo, isso resultava com que menos pessoas o atrapalhassem de ver a sua novela. O caminho era tão longo que só de pensar em voltar por ele de mãos vazias o deixava aflito, tinha que aguardar quanto tempo fosse necessário.

Estava nervoso no momento em que avistou uma luz vinda em sua direção, era tão forte que o cegou momentaneamente. Quando passou a enxergar novamente contemplou um carro luxuoso, mas que não conseguiu identificar, dele saíram dois homens, ambos de terno, um deles magro e alto com aparência bem jovem e o outro de estatura média e robusto, carrancudo e aparentava ter uns 50 anos.

- Stanás Baphomet de Abo? -  Pergunta o homem alto.
- Exato – Disse o homem que estava esperando. Era alto, assim como o primeiro, e um pouco mais robusto, possuía barba espessa e cabelos que chegavam até o ombro penteados para trás – E você deve ser o Douglas.
- E esse senhor ao meu lado é o Olavo – indicou o homem ao seu lado.
Satanás acenou para Olavo, que retribuiu o gesto.
- Vamos aos negócios – Disse Baphomet em um tom confiante. Não queria ficar muito mais tempo neste frio.
Olavo e Douglas concordaram.
- Bem – iniciou Douglas – Como sabe, tal negociação tem a natureza muito complexa, razão pela qual chamei meu advogado e amigo de longa data, Olavo – indicou o homem novamente – que passou as últimas semanas estudando a sua proposta – Sorriu enquanto o jurista aparentava estar cheio de si. -  A propósito, desculpe-nos por sua tediosa espera.
- Não há pelo que se desculparem – mentiu o capeta com um longo sorriso no rosto, dirigiu-se a Olavo – Então Olavo, o que me diz?
- Bem – iniciou o homem pegando alguns papéis que guardava em sua maleta – procuraste meu cliente por conta de sua grande influência nas mídias…
- Sim, Sim -  Interrompeu Satanás – Colunista de um grande jornal, entrevistas realizadas em grandes emissoras de televisão, sem falar nos inúmeros seguidores do facebook, twitter, blog e youtube.
- Não se esqueça de que sou um dos sócios da rede de “Fast Food” CrapDolan’s. – Acrescentou o homem alto.
- Não nos esqueçamos disso – concordou o tinhoso – Tem uma parte importante nos meus planos, mas enfim, prossiga Olavo.
- Continuando – Leu um dos primeiros papéis – Você disse que quer se aproveitar da grande influência que o Douglas tem nas grandes mídias e de sua rede de “Fast Food” para corromper almas.
- Prossiga. – queria que falassem tudo o que tinham de falar da maneira mais rápida possível.
- Você quer fazer um contrato no qual exige as prestações acima mencionadas da parte do senhor Douglas em troca de sua... ALMA?
O diabo concordou com a cabeça.
- Estou sem entender ainda -  Disse o Advogado.
-Bem – Iniciou o diabo fazendo um estalo estranho com a boca – Por onde começar – fez uma pausa para organizar as ideias -  Ahh, claro! O mundo está cheio de pessoas de bem que respeitam a moral, a família e os bons costumes e por conta de tanta bondade e santidade essas pessoas irão para o céu quando morrerem no plano físico.
- A onde quer chegar Demônio? - Questionou o não tão genial jurista
- Eu fico sem almas para torturar durante a eternidade – olhou para o céu e mostrou seus dois dedos médios para cima, logo após voltou-se para a dupla - aí que entra Douglas.
Os homens estavam estáticos.
- Douglas tem grande influência e por consequência uma grande legião de seguidores, pessoas que apoiam as ideias dele. – explicou.
Olavo olhou Douglas e fez um gesto para a encarnação do mal continuar.
- Bem, sabemos que essas pessoas são fanáticas e qualquer incentivo de Douglas as faz tomar atitudes muitas vezes incoerentes – olhou orgulhoso para Douglas - Se tem dúvida, veja como seus discípulos se comportam quando defrontados, não são humanos, são seres que berram e insultam e dependendo do nível de fanatismo podem até matar por coisas bestas.
Douglas estava cada vez mais cheio de si, criar uma legião de babacas parecia uma tarefa bem honrosa para a sua pessoa.
- E quanto a corromper as almas? – perguntou Douglas.
- Essa parte é muito simples para você, basta moldar os seus discursos no sentido em que as pessoas pratiquem atos cada vez mais deploráveis a ponto que seja certa a ida da alma desses imbecis para o inferno. A tarefa será fácil, os seus cães já são adestrados, um truque novo e um capeta feliz.
-  E quanto a “Fast Food”? – o advogado apenas observava.
- Esse é o grande ponto – O diabo sorria cada vez mais – Sabemos que nem todos te seguem, mas mesmo assim não estou disposto a perder a alma deles.
- Com lanche? – interrompeu Olavo.
Satanás olhou para Olavo e disse.
- Olavo, eu não gosto de ser interrompido, você não vai mais fazer isso -  reprimiu – Sua rede de “Fast Food” vende lixos estupidamente viciantes e a cada ano criam mais viciados para fazer mais peso no nosso mundo ...
- E o que você quer fazer com os viciados? – Perguntou novamente o advogado inconveniente.
O capeta fez uma pausa, respirou fundo, os olhos desta vez vermelhos, e estudou o imbecil por um tempo. “não vou mostrar a minha verdadeira aparência para esse papagaio de lei”. Respirou fundo e disse:
- Caro Olavo – Abrandando a voz – da próxima vez que me interromper eu juro que vou te deixar pendurado pelo cu no meu salão convencional durante toda a eternidade. – sorriu enquanto o jurista perdia a cor – continuando o assunto dos viciados, com o seu lixo viciante que chama de comida, as pessoas param de comer por fome e passam a comer apenas para sustentar o vício nessas porcarias.
O homem influente pareceu entender, mas deixou o Baphomet continuar. Decidiu que gostou do capiroto e sinceramente, não era todo o mundo que teria uma conversa dessas, não na posição que estava.
- Comer por que está viciado dá margem a um pecado.
- A gula – Interrompeu novamente o imbecil.
- Exato meu nada agradável jurista. – Olavo estava orgulhoso de sua inteligência – O que eu quero é gula mas o grande problema é identificar que é o guloso.
- Obesidade – Dessa vez o gênio era Douglas.
- Cinco pontos para Douglas – O capeta estava empolgado – A gordisse é apenas uma manifestação da gula, portanto, quanto mais gordos mais almas irão para o inferno.
Olavo e Douglas aplaudiram.
- Mas – começou Olavo – e os gordos que não são gulosos?
- Como se trata de uma exceção veremos isso depois – respondeu categoricamente o ser maligno.
- E a alma? – Questionou Olavo – É possível o capeta vender a alma?
- Perfeitamente – Disse o encardido – Estamos acostumados com pessoas vendendo alma para mim. Vocês esquecem que eu também tenho alma e alma pode perfeitamente ser trocada, negócios nada rotineiros, mas que funcionam.
Os engravatados concordaram.
- E... como vamos saber que é realmente a sua alma?
- Verão – pegou um frasco escrito “ALMA DO CAPETA” em letras garrafais e levou em direção ao nariz, no qual fez um som estranho como se estivesse pigarreando e nesse fenômeno, ao invés de ranho sai uma energia enegrecida com labaredas em volta de cores preta, vermelha e laranja, gritos histéricos e gemidos de dor acompanharam o estranho espetáculo e ao fundo, um som terrível  e cortado identificado apenas pelas palavra "Emoções", "Momento Lindo" e "Vivi" . Os dois imbecis estavam impressionados.

Olavo, tremendo  e com a calça recém borrada, pegou imediatamente o contrato “saiu fogo do nariz dele” pensou o advogado. Qualquer dia as surpresas desse mundo matariam.

- O contrato está aqui para a nossa maior segurança - entregou papel e caneta para que pudesse assinar – prevê as multas de sempre, a prestação já combinada, sem acrescentar e sem tirar nada.
- Saiba que eu sou o pai da mentira – reprimiu o capeta – ninguém na Terra pode me enganar, nem mesmo um Advogado. – Assinou os papéis e entregou-os, juntamente com o frasco que continha a sua alma.
Olavo tomou os papéis.

- Foi um prazer negociar com o senhor, Satanás – Sorriu-lhe Douglas.
- Foi um prazer negociar com os senhores também.

Os homens entraram no carro e foram embora, Satanás ficou por lá contemplando a noite, feliz por sua nova negociação “O que fará agora Deus?”. Tinha um formador de babacas e viciados em suas mãos e logo teria as suas almas “em breve o céu estará igual a essa rua”. Riu desesperadamente, sua risada parecia o grito de uma mulher histérica ao avistar uma barata voadora, com a singela diferença de que a risada do ser das trevas manifestava a sua alegria e não o seu desespero.

Voltou-se para o caminho pelo qual tinha vindo e por ele seguiu. A pior parte era que teria de fazer o mesmo caminho a pé, sentindo o frio e o vento. Ser o Satanás não era fácil, era odiado e sempre levava a culpa das coisas que davam errado com os seres humanos e é claro, sempre tinha algum iluminado para dizer que o diabo estava fazendo com que o pobre coitado andasse torto e falasse esquisito durante a semana toda. Pelo menos agora sentia-se mais feliz, esquecera-se completamente dessas acusações infundadas e dos seus tantos outros problemas.

- Vou para o Inferno – Gritou por fim.

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